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Sobre o fechamento definitivo da Comporta 14

A Federação de Remo do Rio Grande do Sul – REMOSUL, mais antiga federação esportiva do Brasil, vem a público manifestar sua veemente contrariedade com o anúncio feito pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, no dia 19 de julho de 2025, de que a “Comporta 14 será extinta com construção de barreira em concreto armado” .

Em 24 de junho do ano passado, ainda profundamente abalados e impactados com a histórica inundação de maio de 2024, nossa Federação já havia manifestado sua preocupação em relação à notícia de que o DMAE, órgão da Prefeitura de Porto Alegre, planejava fechar permanentemente 8 das 14 comportas do sistema de proteção contra cheias da capital gaúcha (Nota Pública), uma vez que a sede da Federação e a maioria dos clubes de remo da capital se localizam no Parque Náutico Alberto Bins, um espaço público construído pelo governo do Estado do RS ainda nos anos 1950 e onde os clubes desenvolvem uma série de projetos sociais – a partir da prática esportiva – com crianças e jovens sobretudo moradores de bairros como Vila Farrapos, Humaitá, Navegantes e Arquipélago.

A REMOSUL sempre se colocou à disposição da prefeitura e demais órgãos e entidades, participando de todos os espaços e atividades destinados ao debate público sobre a Comporta 14 e todo o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre. Mais do que isso, além de ter participado de audiências, reuniões e demais fóruns, a Federação se colocou à disposição para construir soluções relativas não apenas ao aspecto da mobilidade urbana, afetado pela obstrução de passagem – ainda vigente – da Comporta 14, mas também para pensar estratégias de reaproximação da população portoalegrense com o seu grande corpo hídrico: o Guaíba. Mesmo com o cenário de destruição dos clubes filiados e das tragédias que se abateram sobre o remo gaúcho em 2024, a REMOSUL estava e ainda está profundamente comprometida com a reconstrução das estruturas e restabelecimento de relações que a grande enchente de 2024 afetou. Mais do que isso, a Federação, os clubes e a comunidade do remo gaúcho vêm trabalhando incessantemente para educar e fortalecer a população mais atingida sobre os riscos de novas inundações, a exemplo do que ocorreu recentemente no episódio de cheia em junho de 2025, em que estivemos junto às comunidades e todos os dias repassamos as informações e previsões sobre as possibilidades de uma nova enchente (cota de inundação, redução ou subida do nível da água, quantidade de chuva, previsão de ventos, etc), pois estávamos em contato direto com os órgãos públicos de monitoramento e com entidades que vêm trabalhando com modelos preditivos (IPH/UFRGS, MetSul, etc).

Por este motivo, nos parece inacreditável que o anúncio de “extinção” da Comporta 14 tenha sido realizado apenas alguns dias após a realização da assembleia temática do Orçamento Participativo relativa à ‘Temática de Circulação, Transporte e Mobilidade Urbana’, em que o ponto relativo às comportas não foi devidamente tratado – em que pese um representante ter reivindicado sua abertura, para fins de melhoria na mobilidade da região do entorno da Avenida Castelo Branco – e na quinta-feira, dia 17, em reunião com representantes dos clubes os próprios gestores afirmarem que nada estava definido e que o diálogo seria aprofundado antes de qualquer decisão. No sábado, dia 19, a própria notícia relativa à Comporta 14 foi publicada no site da Prefeitura às 15:34, ou seja, imediatamente ao fim da assembleia regional do Orçamento Participativo para a Região 01 (Humaitá/Navegantes), o que denota uma decisão anunciada ao calor do momento, sem sequer seguir a dinâmica do próprio Orçamento Participativo e sem levar em conta o acúmulo de debates ao longo destes vários meses, com os múltiplos sujeitos sociais, entidades representativas e segmentos que são diretamente afetados pela Comporta 14 e pelas demais comportas.

A REMOSUL, cabe ressaltar, compartilha o mesmo objetivo de evitar inundações e prevenir alagamentos nas comunidades da Região Humaitá/Navegantes e do chamado Quarto Distrito, afinal também fazemos parte desta comunidade, bem como muitos de nossos remadores, que trabalharam intensamente nos resgates e no apoio em maio de 2024. Nós também sofremos diretamente com as cheias – que danificam severamente nossa infraestrutura e dos clubes e prejudicam e/ou inviabilizam a prática do remo – afinal estamos ‘do outro lado’ do sistema de proteção, sendo os primeiros a sentirmos os efeitos das inundações. No entanto, justamente por conhecermos bem a dinâmica do Guaíba e seus tributários na área do Delta do Jacuí, entendemos que a solução não pode ser simplesmente isolar uma região inteira, ignorando não apenas outros estudos técnicos de hidrologia, mas uma série de impactos ambientais, econômicos, sociais culturais e históricos que essa medida trará. O fechamento definitivo da Comporta 14 não afetará apenas a mobilidade urbana na região, mas será responsável por alienar ainda mais todo um modo de vida que consolidou estes bairros como áreas de convívio com as águas. Além disso, não há nenhuma garantia de que o fechamento definitivo ou extinção da Comporta 14 vá reduzir as possibilidades de inundação (quando a água do rio entra na cidade), uma vez que se não houver manutenção adequada nas casas de bombas ocorrerá o mesmo que aconteceu em 2024 em muitos pontos de Porto Alegre, quando a água veio pela rede de drenagem, e não apenas pelas falhas dos diques e comportas. Da mesma forma, é importante que não se confunda o episódio de inundação com os constantes alagamentos (água da chuva que não consegue escoar) a que a região está sujeita, seja por ser uma área de várzea, seja pela insuficiência das casas de bomba e da rede de drenagem. Nesse sentido, a extinção da Comporta 14 pode prejudicar ainda mais em episódios de inundação, fazendo a água demorar ainda mais para baixar.

Nesse sentido, solicitamos que a Prefeitura de Porto Alegre:

  1. Suspenda imediatamente a decisão de fechamento definitivo e/ou extinção da Comporta 14;
  2. Retome o diálogo transparente com todas as partes envolvidas, incluindo a REMOSUL, as associações de moradores e os representantes dos setores econômicos;
  3. Retome a decisão de consertar e instalar uma nova estrutura de ferro na Comporta 14, mais resistente e cuja utilização se dê de acordo com o prevista no projeto original do sistema de proteção contra cheias, conforme havia sido previsto após as reuniões de 2024 e 2025.
  4. Apresente estudos técnicos detalhados que comprovem a eficácia da medida e suas consequências a médio e longo prazo, levando em conta, além dos aspectos hidrológicos, as variáveis sociais, ambientais e culturais;
  5. Busque soluções integradas, que protejam as comunidades das inundações sem sacrificar o desenvolvimento econômico, o ambiente e o esporte.

A REMOSUL está disposta a colaborar na busca por alternativas que beneficiem a todos, mas reiteramos que não aceitaremos medidas impostas sem discussão e que sacrifiquem parte importante da cidade. A água é um bem coletivo, e sua gestão deve ser feita com responsabilidade e participação social.

REMOSUL: Juntos, reconstruindo o futuro do remo gaúcho!

VICENTE GOULART
Presidente da Federação de Remo do Rio Grande do Sul – REMOSUL
A mais antiga federação esportiva do Brasil, desde 1894.

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